sexta-feira, 23 de março de 2012

segunda-feira, 19 de março de 2012

Segunda

Nunca encontrei cores para descrever o amanhecer deste lugar. É algo opaco. A névoa encobre parte das montanhas, ao longe, como se, do lado de lá, existisse o vazio. É quase silêncio. Insiste um vento intermitente, exausto das curvas da noite. Uma folha de amendoeira invade meu quarto pela brecha da janela, tremelica a cinco palmos do chão e despenca no carpete amarelecido – seria epifania, se não fosse solidão. 6h30: dispara a bomba-relógio sobre a cômoda de madeira rude. Já se ouve as buzinas a espantar os cavalos na estrada de terra. As primeiras horas da segunda, o café ralo na caneca velha e o borrão na toalha azul. Papéis, na mesa, na poltrona, no chão, e sacolas plásticas crepitando. Daqui tão perto, a porta. Lá fora, espreguiçando-se ainda, o primeiro dia útil, inevitável, convocando-me como uma promessa.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Acabo de ter uma grata surpresa. O querido Fabrício Brandão publicou nessa 65ª leva da Diversos Afins um textinho meu escrito há uns três anos (na época do De Lírio).
Bom ver como nossa escrita muda, como a gente muda e, principalmente, bom saber que mesmo depois de um tanto de tempo, as pessoas ainda lembram de nós.
O primeiro troço que escrevi na blogosfera foi em 2008 e já de cara a Diversos Afins topou publicar. Esse é o grande barato da revista: ela possibilita que escritores experientes e iniciantes compartilhem, usufruam de um mesmo espaço -- coisa rara nos nossos dias, não?
Leiam a Diversos Afins, que é atualizada mensalmente!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Nota 1

Sacolejar em ônibus lotado faz bem pra cabeça e pro coração. Você não faz planos, cria ou morre de amor. Você nem consegue ler o livro que tira da bolsa. Mas você pode ouvir uma música e achar que os movimentos das pessoas estão sincronizados, como Pink Floyd e Mágico de Oz. Pode também achar a vida mais fácil e mais cansativa. Pode mesmo dormir sem sonhar, babar no ombro da mulher gorda sentada à janela e até se sentir verdadeiramente feliz ao acordar com o sol dando as caras entre os braços rijos e cabeças caídas.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Queridos,

só pra lembrar que

eu, Marcos Vinicius Almeida, Bruna Maria, Nina Rizzi, Milena Martins, Diego Moraes, Maurício de Almeida e Mauro Siqueira também estamos aqui:

http://gmorra.tumblr.com/

(Não necessariamente com esses nomes)

Apareçam.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

À Mel

Demorou a pegar no sono naquela noite. Lembrava do sorriso quase sério da menina, os dentes separados -- não sorria todo o tempo, isso a diferenciava das outras crianças, em geral felizes ou chorosas demais. A mulher pensava no esforço inútil, a tentativa de evitar o primeiro encontro. Sentia-se culpada: era só uma garota de oito anos. Sabia, sim, que não haveria dano, sua vida transcorreria naturalmente mesmo depois de conhecê-la. No entanto, um receio quase doce: algo ficaria, algo daquele domingo, ainda que tão pequeno quanto a mão que ela ajudou a lavar na pia alta do banheiro. Seria, então, silenciosa demais a manhã de segunda, casa vazia, o sol fresco de setembro já no meio da sala -- janela aberta sem cortina escancarando o medo de esquecer-se ali.